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Trabalho e pandemia: o essencial é a vida

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Trabalho e pandemia: o essencial é a vida.

 

A forma como nos referimos ao dia 1º de Maio implica sempre uma escolha sutil entre duas perspectivas de significados diferentes: é Dia do Trabalho ou Dia do Trabalhador? Pode parecer uma distinção sem importância, mas a opção por um dos dois termos indica, de partida, o foco dado a esta data tão importante. Preferimos dar atenção aos sujeitos trabalhadores ou à sua atividade de trabalho? A humanidade sempre trabalhou, mas a instituição do 1º de Maio como uma data de relevo em nosso calendário remete às reivindicações de trabalhadores por melhores condições de trabalho e remuneração, isto é, se refere à ação política de sujeitos que, para continuar trabalhando, buscavam melhorar as situações em que isso ocorria, pois entendiam o trabalho como meio para e não como a finalidade última de suas vidas. Deste modo, a sutil diferença entre dois termos praticamente iguais oculta, na verdade, uma disputa de princípios e que se desdobra em problemas éticos e políticos muito sérios. Afinal, trabalhamos para viver ou vivemos para trabalhar? Deve-se aceitar trabalhar a qualquer custo e sob qualquer risco? Sob obediência de quem? Isso está na origem desta data tão importante.

 

A pandemia de Covid-19 fez estas questões ganharem uma dimensão dramática. Elas aparecem quando a discussão sobre o combate à disseminação do coronavírus opõe “economia” e “vida”. Alguns setores da sociedade, desde o início da pandemia, se posicionam contrariamente às medidas restritivas de circulação e contato de pessoas, alegando os impactos negativos gerados para a atividade econômica. Ainda quando o número de mortos por Covid-19 não chegava a 20 por dia, no final de março de 2020, representantes destes setores diziam que “o Brasil não podia parar”, segundo eles, por conta de 5 ou 7 mil pessoas que iriam morrer. Esse pressuposto de que a vida de milhares de pessoas é, no limite, descartável quando comparada com a economia continua a ocorrer mesmo agora, quando a média diária de mortes superou 3 mil registros e, na semana do 1º de Maio e próximo do Dia das Mães, o Brasil provavelmente ultrapassará a trágica marca de 400 mil mortos por Covid-19.

 

Inicialmente, achava-se que a Covid-19 seria uma doença “democrática” e que, diante da forma de contaminação (pelo ar), ela atingiria as pessoas independentemente de sua condição social. Depois de mais de um ano de pandemia, a situação não é essa. Lembremos que o coronavírus chegou ao Brasil pelos aeroportos. Pessoas que trabalhavam ou se divertiam na Europa, na China ou nos Estados Unidos aterrissaram por aqui com o vírus e deram início à contaminação local. A trajetória do vírus obedeceu à lógica das classes mais ricas para as mais pobres, das capitais para o interior do Brasil. Ao longo deste caminho, o encontro do vírus com as desigualdades brasileiras (renda, moradia, raça, gênero, região, acesso a serviços de saúde, etc.) acabou por estabelecer um certo padrão para as vítimas da doença. Pesquisa realizada pelo site Pindorama, com dados sobre Covid-19 no Brasil entre fevereiro e agosto de 2020, comparara contrair a doença com uma roleta russa. No período, o risco de morte para quem precisou de hospital foi de 38%; para quem necessitou de UTI foi de 59%; e para os intubados foi de 80%. O risco de morrer pela doença equivale a colocar duas balas de revólver em um tambor de cinco, se o paciente fosse hospitalizado; três balas, se for para UTI; e quatro balas em cinco, se for para intubação. Estes altos riscos, contudo, não afetam igualmente todas as parcelas da população. Outro estudo, feito a partir dos registros de óbitos entre março e setembro de 2020 em São Paulo, indica que a taxa de mortalidade chega a ser três vezes maior nas regiões mais pobres da cidade em comparação com as mais ricas. Entre as pessoas negras (pretas e pardas), a mortalidade chegou a ser 77% maior que a de pessoas brancas. Não por acaso, as parcelas da população que mais foram vítimas da Covid-19 são as mesmas que ocupam os trabalhos com condições mais precárias e de menores rendimentos.

 

É diante deste quadro traçado pelo encontro trágico entre a pandemia de Covid-19 e as desigualdades sociais brasileiras que muitas vezes se discute a essencialidade do trabalho sem necessariamente incluir a essencialidade de cada trabalhador. É como se a atividade não tivesse nenhum sujeito ou como se os sujeitos fossem dispensáveis. Todos os setores econômicos interessados reivindicam serem essenciais para não serem enquadrados em medidas legais de restrição de funcionamento. Enquanto isso, milhares de pessoas são colocadas em risco de morte e se submete milhares de trabalhadores da saúde ao esgotamento. Ao apagar-se a dimensão dos sujeitos, o discurso pela liberdade de trabalho implica em uma questão ética muito séria: é diante do altar de qual deus que se oferecem essas vidas em sacrifício? Nós, que seguimos vivos, precisamos refletir sobre isso quando nos encontramos diante do debate sobre “economia” e “vida”: economia para quem? Vida de quem? Essas perguntas são ainda mais fundamentais em um momento em que, durante a pandemia, aparecem 11 novos brasileiros na lista de bilionários da revista Forbes, enquanto o número de brasileiros passando fome dobrou em dois anos – chegando a 19 milhões de pessoas em 2020 – e o país tinha 50% da sua população com insegurança alimentar. Não se pode submeter ninguém ao risco de morte sob o pretexto de salvá-la de algo supostamente pior. E, quando finalmente se começa a vacinar a população, há a pressão para que grupos empresariais furem a fila do Programa Nacional de Imunização.

 

No romance Esaú e Jacó, Machado de Assis narra o enterro de Flora, uma jovem cujo amor era disputado pelos dois irmãos protagonistas da história, e que ocorria quando o presidente brasileiro da época, Floriano Peixoto, decretava estado de sítio. Em uma passagem, o autor escreve: "não há novidade nos enterros. Aquele teve a circunstância de percorrer as ruas em estado de sítio. Bem pensado, a morte não é outra coisa mais que uma cessação da liberdade de viver, cessação perpétua, ao passo que o decreto daquele dia valeu só por 72 horas. Ao cabo de 72 horas, todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver”. A vida é o fundamento de todos os outros direitos, de todas as outras liberdades, pois sem ela nada mais se sustenta. Depois de mais de um ano de pandemia, no Brasil, a forma pouco inteligente como ocorreu o debate “vida” X “economia” impediu que, no fim, se preservassem ambas as coisas: temos índices altíssimos de mortes e continuamos em séria crise econômica. E isso não ocorreu em todos os lugares. Mundialmente, o Brasil está isolado no que corresponde às medidas de combate à pandemia.

 

O falso dilema entre economia e vida nos trouxe à maior tragédia humanitária da história brasileira. Não há saídas individuais para o problema. Aqueles que mais sustentam o peso do trabalho também são aqueles mais atingidos pelos riscos de morte e de sequela da Covid-19. Que neste 1º de Maio relembremos o motivo original que motivou a criação da data: a solidariedade e o espírito coletivo entre aqueles que entendem o trabalho como mediação para uma vida melhor e que, portanto, lutam para que sempre haja vida e vida em abundância.

 

Cássius de Brito

Profº Voluntário na Escola de Cultura, Fé e Política da Cáritas Arquidiocesana de Maringá

 

 

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